
Exposição 'Ouro sobre preto' (2025)
A partir de três anos de viagens e trilhas por diferentes biomas do Brasil e no Canadá, a exposição ‘ouro sobre preto’ reúne fotografias artísticas de natureza, instalações, performances, mapas, músicas e vídeo para reimaginar a galeria de arte enquanto uma floresta sensorial. Concebida como uma experiência imersiva, a mostra é um convite para os visitantes investigarem mistérios, construindo seus próprios sentidos para as obras a partir de um ambiente obscuro e sinestésico. Questionando como os caminhos de cada pessoa agregam valores diferentes a natureza, os convidados são confrontados com suas próprias fantasias em busca de um ‘El Dorado’ ou ‘Pindorama’ perdida, lugares hipotéticos e utópicos que se constroem enquanto o peão da vida girar.
Curadoria: Cecilia Stelini
Produção geral, assessoria de imprensa, expografia e design gráfico: Mathias Reis
Produção AT AL 609: Caia Gusmão
Montagem: Caia Gusmão, Mathias Reis, Rodrigo Zanotto e Ricardo Raggi
Parcerias artísticas: Anderson Kaltner, Cecilia Stelini, Dermot Wilson, Greice Arthuso, Gwen MacGregor, Henrique Detomi, Iam Campigotto, Johannes Zits, Luciana Beloli, Marcio M. Carvalho, Norma Vieira , Paulo Costa, Paulo Kielwagen, Raffaela Pastore, Rodrigo R. Reis e Quan Steele
Agradecimentos: Broken Forest’s Group, N’me | AV:A Unesp, Faculdade de Artes Visuais PUC-Campinas, Pincho Casanova, Daniel Von, Paola L. Demanboro, Flora D. Reis, Nina D. Reis, Adriano R. Reis, Graça Reis, Antônio Carlos Demanboro, Hilka Demanboro, família e amigos.
A viagem lúdica de Mathias Reis por Paulo Cheida Sans
Acompanho a trajetória artística de Mathias desde a época do início de sua graduação em Artes Visuais em 2012. Lembro-me de sua participação no Festival Brasileiro de Nanometragem em Atibaia, em 2014, e de sua performance-denúncia no vídeo para a 8ª Bienal do Esquisito, exibida em Atibaia e Lima (Peru), em 2019. Além disso, destaco suas ideias e obras diversas em variadas possibilidades de criação. Já havia visto muito do artista e sempre me surpreendia positivamente. Eu sabia de sua capacidade multimídia, do talento musical, da refinada educação e da persistência em dedicar sua busca pessoal à Arte e à Natureza. Para Mathias, Arte e Natureza se fundem numa simbiose expressiva de conduta como pessoa. Sim, artista e pessoa se completam. Não basta entrar no ateliê e se sentir artista. Mas, ao andar, ao se vestir e ao se alimentar, o artista pessoa é um só, o mesmo, que aprecia a Arte e a Natureza. Mathias é a obra. Para ilustrar esse meu pensamento, trago à luz o que disse o expoente artista e ativista ecológico Franz Krajberg (1921 – 2017): "A estética não me basta. É necessário que a obra possa ecoar e reverberar o grito que trago no peito.” Mathias, a seu modo calmo e sereno, grita artisticamente. Captura a beleza da natureza como uma pintura mágica em suas fotos. Assim como fisga as imagens das performances como quem extrai o mistério e a magia do escuro de cada cena retratada.
Na AT AL 609, a mostra Ouro sobre Preto, de Mathias Reis, transforma a galeria numa floresta sensorial, reunindo fotografias, instalações, performances, mapas, som e vídeo. A experiência interativa é ativada pelo visitante, que, ao rodar um pião como em uma busca ao tesouro, assume o papel de participante. Munido de uma lanterna que projeta luzes douradas, ele caminha pelas salas expositivas, desvendando novas interações visuais que proporcionam uma viagem lúdica e imersiva. É um encontro único com a Natureza, revelada pelo olhar do artista.A mostra Ouro sobre Preto é um algo muito maior do que uma exposição, é uma obra de arte no seu todo. Mathias cria uma obra com o seu talento expográfico, sonoro, multimídia e como artista criou o chamariz da sua e nossa “verdade”: somos Natureza. A viagem lúdica e requintada que Mathias nos propõe é o olhar para o que temos e somos em nosso próprio mundo. O artista utiliza de subterfúgios de rara sensibilidade para propor uma viagem visual, sonora e sensorial. Isso me faz lembrar José Saramago (1922 – 2010), e assim, parafraseando esse escritor poeta, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura (1998), diria que Mathias sabe que: “o que dá o verdadeiro sentido ao encontro é a busca, e é preciso andar muito para se alcançar o que está perto.”


Matéria de Cibele Vieira publicada no jornal "Correio Popular" no dia 20 de dezembro de 2025. Para versão digital acesse: https://correio.rac.com.br/entretenimento/ouro-sobre-preto-1.1748864
Depoimento do artista
A exposição foi feita a partir da minha pesquisa sobre processos de criação com o ambiente e a paisagem. Nos últimos dez anos tenho me dedicado a criar obras de arte em que a natureza tem participação fundamental em sua concepção e de várias formas, protagonismo. É uma perspectiva que começa por tirar minha vida pessoal ou a concepção que tenho de mim mesmo do centro de atenção para me concentrar na relação sensorial direta com outras formas de vida e forças geofísicas, perceber toda uma pluralidade de expressões vitais que se tornam matéria prima para criação artística e aos poucos vão modificando minha maneira de ver e estar no mundo.
Evito bastante romantizar a natureza, pois, ao mesmo tempo que a vida está em constante ebulição, o conflito é um constante, assim como o luto. Isso tudo está muito além de qualquer julgamento moral e pra mim é essa essa potência indômita descontrolada e sem contornos que me encanta, pois está muito alheia a minha vontade. Minha percepção é grande para mim, mas pequena para o todo. Uma característica importante das minhas obras são as grandes áreas de preto e sombra nas fotografias, instalações, dentre outros. Eu gosto de preservar esse mistério com o escuro, o ser humano o teme porque teme o que é desconhecido. Mas é a partir dele que temos curiosidade para inventar coisas, especialmente propósitos existenciais. Há uma falta de aceitação de que estamos no escuro; usamos a arte, a filosofia e a ciência como uma lanterna para ver algum caminho à frente, mas se nós voltarmos para trás e iluminarmos o mesmo lugar tudo estará diferente da última vez.
Nesses últimos três anos percorri muitas trilhas em diferentes lugares como Parques Estaduais, Federais e reservas privadas, de onde coletei o material para essa exposição. Nesse processo tive um panorama nítido da preservação dessas áreas, pois todos estão seriamente ameaçados. As vezes me parecia que havia uma sombra de destruição no meu encalço, como no Parque Nacional da Serra da Canastra, onde presenciei o início de uma queimada que perdurou um mês após minha partida. O lugar das minhas fotografias não existe mais, não da mesma forma. Dessa perspectiva parece que minha minha arte é também um testemunho dessa extinção da diversidade ecológica. Na estação do ano em que fui, incêndios não ocorrem naturalmente e suas origens são criminosas, há uma vasta literatura científica sobre isso.
Se mudarmos de escala temos um governo favorável à exploração de petróleo na foz do Amazonas. Estive no Canadá e presenciei a indústria de corte comercial da florestas primárias. Também vimos com a COP30 que não há disposição a nível global em tratar as questões ambientais com seriedade, ou seja, muito se fala mas poucos parecem se importar mesmo com esse cenário, por excessão os povos originários de diversas nacionalidades. Tampouco não há quaisquer políticas culturais direcionadas a incentivar questões ambientais no campo artístico. Na mesma medida que a multiplicidade de nossos biomas é devastada, a sensibilidade, a imaginação e as formas únicas e singulares para ser no mundo, também são reduzidas às mesmas narrativas óbvias partilhadas nas redes sociais, reforçadas por algoritmos e por fim, brutalizadas pelo cotidiano engessado, violento e solitário das grandes cidades. Nesse sentido, tanto a natureza presente em minhas obras quanto a própria exposição em si, são parecidas na medida em que, para mim, ambas podem ser redutos onde há alguma chance para o que é diferente viver, ainda que cada vez mais cercados por monoculturas de pensamento e físicas.
Apesar de tudo, acho que uma exposição de arte não é algo reativo, mas algo ativo que propõe. É assim que eu gostaria que fosse vista, enquanto uma celebração do que merece ser dado valor, enquanto partilha afetiva entre tudo que não se rende ao conformismo. Por fim, não adiantei muito sobre o que será encontrado ao visitá-la, pois, o que disse aqui é apenas que minha leitura das coisas, a partir das minhas vivências, enquanto a arte é outra coisa e não tem nada com isso. A arte é do mundo, as obras estão lá para cada um ter uma experiência diferente, pensar por conta própria e ter espaço para inventar e repovoar o mundo com suas próprias fantasias. Um brinde a isso.

























